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A queda da propriedade individual

Escrito por RafaelMcd

Em um artigo do economista norte-americano Tyler Cowen na Bloomberg, “Ato own less stuff, and that’s reason to be nervous”, incide um dos efeitos mais recentes e notórios da tecnologia: a diminuição da necessidade de possuir bens físicos, como tais, em benefício de outro tipo de modelos baseados no acesso e amparados pela ausência de fricção.
A tendência é evidente: nós passamos de encher prateleiras em nossas casas com discos envolvidos em capas de plástico com as suas capas, para simplesmente pagar por um serviço que permite aceder de forma mais confortável e útil toda a música de que precisamos em cada momento. Deixamos de ter livros em casa, para que seja a Amazon quem os tenha e que nós possamos acessar a sua leitura através de qualquer dispositivo, com vantagens, tais como procurar uma frase ou armazenar nossos destaques confortavelmente. Já não achamos interessante possuir fitas de vídeo: em seu lugar, uma assinatura do Netflix e serviços similares, nos proporciona o acesso a todo o conteúdo em vídeo que podemos precisar, e muito mais. Cada vez mais, quando deixamos de usar um objeto, já não o guardamos em uma gaveta ou em uma sala de armazenamento: o fotografamos e o listamos em uma página, onde uma outra pessoa que pode precisar ou deseje este nos oferece dinheiro, em muitos casos, para nos livrar dele. Modelos de diferentes tipos, que permitem cada vez mais pensar em esquemas econômicos mais eficientes, em um conceito de economia circular, menos linear, com uma proposta de aproveitamento muito maior de produtos, em uma área onde, sem dúvida, veremos em breve desenvolvimentos ainda mais provocantes.
Quando completei os 18 anos, a minha obsessão era conseguir a carteira de motorista e ter um carro. A minha filha, e pelo que vejo, muitas outras pessoas da sua geração, fez a carteira de motorista, porque sua mãe e eu lhe insistimos em fazer isso e foi utilizada apenas quando não teve mais remédio, pois não tem carro e move-se sempre em serviços de transporte públicos ou privados, de acordo com o momento. Para ela, possuir um automóvel não tem o menor interesse, e a garagem de sua casa, inclusa no preço do aluguel do seu apartamento, está lá simplesmente para quando tem visitas.
Para muitas outras pessoas que seguem modelos menos radicais, desfrutar de um carro envolve simplesmente pagar quotas a uma empresa de leasing ou renting, que é a que possui a titularidade do veículo, e obter simplesmente um direito que inclui todo o necessário para seu uso, a partir de seguros e impostos, até manutenção. O conceito se estende até mesmo à propriedade imobiliária, e não apenas nos referindo ao clássico aluguel: muitas famílias colocam suas férias no fato de ter acesso a propriedades em qualquer lugar do mundo graças aos modelos baseados em home exchange.
Tradicionalmente, o acesso às camadas mais elevadas da sociedade em termos de estatuto baseia-se na acumulação de propriedade, possuir mais coisas do que outros. O rico era o que tinha muitas posses, o que armazenava mais objetos, o que tinha mais cavalos, mais terras ou mais ouro. Daí, passamos aos que são verdadeiramente ricos, os bilionários que aparecem nos mais altos postos na lista da revista Forbes, sejam aqueles que possuem ações de empresas, que não são nem dinheiro entendido como tal, mas o símbolo virtual de propriedade de uma empresa que, supostamente, pode chegar a gerar lucros certos em um prazo estabelecido (ou em determinadas empresas, nem isso).
A tecnologia possibilita uma progressão na retirada da fricção econômica, que implica que a verdadeira riqueza não seja possuir os bens como tal, mas em ter acesso a modelos que permitam desfrutá-los de forma vantajosa. Um declínio do conceito de propriedade, cada vez mais pronunciado e que abrange cada vez mais aspectos, até mesmo alguns relativamente insuspeitos.
Hoje, o certo não é o que se compra um patinete elétrico porque tem dinheiro para isso: esse é, na verdade, um desajeitado que se auto-impõe a obrigação de carregar duas dezenas de quilos de aparelho sobre o ombro pra todas as horas, para utilizá-lo em um tempo minúsculo, enquanto, além disso, você tem que se preocupar com carregar suas baterias e de onde o deixa, em cada momento, se este for roubado. O certo é o que, em seu lugar, assegura-se que, sempre tenha um patinete para ir de um lugar a outro, ou que o tenha lá, a poucos metros, pronto para uso. A propriedade já não é uma vantagem, mas a bola com corda amarrada ao tornozelo com a carga que do condenado que não entendeu o novo modelo.
Como é de se esperar que o conjunto da sociedade, entenda e compre apaixonadamente este conceito de access economy, quando os modelos econômicos baseados na propriedade individual dos bens estiveram vigentes durante séculos? Em absoluto não devemos esperar. Mas isso não quer dizer que esse modelo é baseado na disponibilidade de tecnologia que torna possível não se ter tornado uma tendência cada vez mais representativa e que, como tal, represente o alicerce sobre o que se está construindo uma economia mais eficiente.

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RafaelMcd

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