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Para entender a China e as tecnologias: Uma questão de ponto de vista

Escrito por RafaelMcd

Um par de longos artigos recentes no MIT Tech Review, incidem na busca de explicações para a cada vez mais acentuada tendência da China para se tornar o perfeito reflexo da distopia de George Orwell em “1984”, e o fazem com uma explicação que encontro, como mínimo, interessante e digna de consideração: a do quadro da referência.
Por que é difícil entender China a partir de uma mentalidade ocidental? Pois, em muitos sentidos, os ocidentais, particularmente desde a perspectiva dos países com certa tradição democrática, compreendem uma série de direitos e liberdades como intrínsecos à natureza humana, como praticamente inalienáveis ou irrecusáveis. Podemos arrebatar para um ocidental, o seu direito à privacidade – e, de fato, está acontecendo – mas não sem que surja uma certa resistência, ou que seja necessário colocar em jogo uma série de trocas: de fato, a renúncia à privacidade é comum que se faça de forma expressa, e sim em função de questões como uma maior segurança, o acesso a um produto desejável ou considerado interessante, de forma gratuita, a promessa de uma apreciação social, etc.
Entender a China e sua classificados de acordo com relação à tecnologia implica entender a sua história, as suas estruturas sociais, o papel de elementos como a vigilância e da monitorização em que as pessoas se submetem entre si, etc., Visto assim, é possível que se possa argumentar que, na verdade, o uso crescente das tecnologias associadas com a monitorização da China até convertê-la em todo lugar não é uma maneira de avançar em uma distopia, mas uma forma de fazer essa distopia menos injusta e de situar os castigos ou represálias por determinados comportamentos no lugar certo. Se o tráfego de uma grande cidade chinesa é considerado um problema social importante, punir aquele que faz com que o tráfego seja muito pior pode chegar a ser considerada melhor do que a alternativa de impor penalidades ou restrições a todos por isso. Em função da referência que tomemos, entender que o uso de dados pode ajudar a construir uma sociedade menos injusta é, como tal, uma ideia difícil de entender, mas não completamente da segunda guerra mundial, ou pelo menos, digna de uma certa reflexão.
Se partimos de uma ótica de uma sociedade democrática, mesmo com todos os problemas intrínsecos à democracia ou à relação entre democracia e tecnologia que temos já um tempo a discutir, entender que para um país como a China, com todos os seus condicionantes, o uso de arquiteturas grandes de processamento de dados aplicadas às relações sociais pode levar a uma melhoria do sistema de liberdades é uma ideia provocativa que, sem dúvida, vão ter que explicar devagar, e cujos perigos, nas mãos de uma minoria dirigente, são evidentes. Mas se vier de um sistema em que a democracia não só não existia, mas que, além disso, as regras se aplicam de maneira praticamente imprevisível ou arbitrárias, o fato de que passe a outro em que, ao menos, a relação com o estado seja onde ele vê o que realmente você fez ou deixou de fazer, a situação pode ser entendida a partir de sua perspectiva, como uma melhoria, embora assim dizer, pode parecer uma forma de justificar algo que, desde um ponto de vista ocidental, seria completamente injustificável, e estaremos sempre longe de justificar.
Na minha experiência com estudantes chineses, sempre me foi difícil compreender, por exemplo, que os levava a considerar que a sua situação era melhor, tendo acesso ao Google, embora fosse uma versão do Google censurada, do que não ter, ou que poderia valer a pena renunciar ao interesse em determinados temas pela mudança de uma situação econômica que evoluía de forma claramente ascendente. É, simplesmente, uma questão de sistemas de referência, em relação ao que comparam a sua situação.
Agora, nós já temos toda uma geração na China que cresceu sem ter acesso a ferramentas e serviços como Google, Facebook ou Twitter que no Ocidente consideramos praticamente “um direito”, usando outras que chegaram lá para preencher o vazio deixado por elas, mas submetidos a uma forte censura.
Para entender a China e a interface de um site com uma presença da China cada vez mais ubíqua, há que fazer algo mais do que aplicar clichês a partir de uma ótica ocidental: há que entrar em seu contexto, pensar a partir de sua situação, levar em conta as suas circunstâncias, e fazer um esforço para não tomar como evidentes conceitos que não necessariamente o são, mesmo que nos pareçam.

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RafaelMcd

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