Dicas Tecnologia

Usuários pouco inteligentes para usar a Internet? O problema das notícias falsas

Escrito por RafaelMcd

De acordo com uma pesquisa recente da Gallup e da Knight Foundation, 85% dos norte-americanos acham que as plataformas sociais não fazem o suficiente para combater a divulgação das notícias falsas, e a maioria apontam estas plataformas pela responsabilidade sobre a veracidade do conteúdo.
Como eu disse várias vezes, o problema das notícias falsas não está nas plataformas sociais, mas também nos usuários, e, concretamente, na sua ausência de pensamento crítico. A falta de pensamento crítico é o que leva uma pessoa a acreditar em uma notícia simplesmente “porque a viu no Facebook”, porque “ela chegou por WhatsApp” ou porque “é o primeiro resultado no Google”, do mesmo modo que o desejo de obter notoriedade ou apreciação social é o que leva não apenas a crer, mas também a compartilhá-la com seus amigos. Na prática, o que um percentual elevadíssimo de norte-americanos estão dizendo com esta pesquisa, não é nem mais nem menos do que “nós somos estúpidos demais para usar a internet, e exigimos que as plataformas sociais nos protegem”.
Não, o problema não são as notícias falsas, e as plataformas de redes sociais não podem ajudar a proteger os usuários de si mesmos. Proteger alguém que é demasiado estúpido para se proteger a si mesmo é um problema, porque impede que Darwin funcione como deveria.
Durante toda a história da humanidade, tivemos ferramentas que permitiam que uma pessoa que acessa informações confiáveis: há anos que temos de bibliotecas, mas como exigiam um certo esforço para se informar sobre elas, se mantinham suficientemente afastados de forma natural os que eram estúpidos demais para usá-las. Internet, no entanto, coloca-se toda a informação à distância de um clique de qualquer pessoa, e com isso, permite-se que qualquer um, mesmo aquele que é demasiado estúpido para racionalizar minimamente sobre que está lendo, faça login.
Nesse sentido, as redes sociais devem evitar ser utilizadas como ferramentas de manipulação em massa e se deveriam tentar identificar estratégias destinadas a promover a viralização de certas mensagens, e devem, como já estão tentando fazer, tentar eliminar mensagens que incitem à violência ou ao ódio, mas não podem – nem devem – se tornar juízes que circula por elas. São, simplesmente, um canal, com algumas regras que devem ser o mais transparente possível. Em grande medida, o papel de proteger-se contra a desinformação, as notícias falsas ou fraudes tem que recair, pondo-a no lugar onde deveria, nos usuários.
Um esquema é uma farsa, e quem o leva a cabo é um vigarista. E a lei conta com mecanismos para proteger as pessoas dos golpistas, embora seja possível que a universalidade da internet transforme essa possível perseguição, por vezes, em um verdadeiro desafio. Mas o que devemos fazer com o enésimo estúpido que responde a um e-mail de um suposto ditador nigeriano que pede seus dados bancários, pois garante que vai transferir a  ele muitos milhares de milhões de dólares?
Pode realmente alguém pensar que a responsabilidade sobre isso corresponde a uma ferramenta de e-mail, a empresa que a administra, ou a rede social através da qual essa mensagem é enviada? Não seria mais correto e factual assumir que essa pessoa era, simplesmente, muito estúpida para poder utilizar a internet? O que devemos fazer não é berrar contra a internet e seus atores, mas, sim denunciar a perseguir, logicamente, a quem o tenha enganado, tentar fazer com que o usuário adquira educação para que não volte a cometer erros desse tipo, e entenda de uma vez por todas que as coisas que são demasiado bonitas para serem verdade, se devem ao fato de que simplesmente não são verdade.
A solução, obviamente, não é tentar construir “uma internet à prova de tolos”, mas educar os usuários para que aprendam que nem tudo o que leem no Facebook, o que aparece como resultado de uma pesquisa do Google, ou o que lhes chega por WhatsApp é necessariamente verdade.
O problema, claro, é que, para muitos, as mentiras mais falazes e evidentes são nem mais nem menos do que o que eles querem crer, aquilo que decidiram se convencer a si mesmos, ou até mesmo, em muitos casos, que pretendem convencer os outros: o que temos visto em muitas ocasiões, quando uma rede social marca uma notícia como falsa, e milhares de tolos correm para difundi-la ainda mais, retroalimentada com isso de “o que o Facebook não quer que leia”.
E as notícias falsas, nem sequer são patrimônio da internet ou das redes sociais: muitos meios tradicionais, como jornais ou redes de televisão, participam também na sua difusão, em busca da notícia fácil, da geração de atenção a todo custo, ou, por que não, tentando criar estados de opinião no público que considerem coerentes com a sua linha editorial. A única coisa que a internet e as redes sociais têm feito é diminuir as barreiras de entrada para a publicação: agora, qualquer um pode se tornar um meio de comunicação, do mesmo modo que qualquer um, com meios suficientes pode simular uma audiência de um determinado tamanho que se escandaliza com um determinado assunto ou que representa um forte apoio a certas teses.
Pedir para as redes sociais que sejam transparentes com relação a seus procedimentos, que tentam impedir processos de manipulação ou que tentem limitar a difusão de mensagens que incitem ao ódio pode ser adequado. Mas centrar o problema das notícias falsas no canal é um erro grave, porque a grande verdade é que a verdadeira responsabilidade está nos usuários.
Podemos, ao longo de uma geração, e se nós queremos seriamente isso, construir sistemas de ensino que se dediquem a reforçar o pensamento crítico, que não se tome como verdade nada pelo simples fato de que esteja escrito em um livro, em uma tela ou que tenhamos visto em um vídeo. Mas negar a responsabilidade do usuário é como forçar-nos a marcar um micro-ondas com um adesivo de “não o utilize para secar o seu animal de estimação” e se algum desavisado pensar em colocar seu gato dentro e depois, além disso, vai a denúncia: um lembrete permanente de que algumas pessoas são pouco inteligentes não só para usar um micro-ondas, mas também para viver em sociedade, e, claro, para usar a internet.

Sobre o autor

RafaelMcd

Deixe um comentário